mundo cão

Voltava do trabalho. Notei caminhando logo à frente uma mulher aparentemente vestida de capa de chuva. Andava como se lhe aguardasse um compromisso. Era noite e demorou para que eu percebesse, depois de tê-la notado, que a capa preta era na verdade um saco de lixo. Não chovia. Eu caminhava assim, olhando-a sem interesse, quando percebi também que a seguia um cão. Um cão pretinho com patas miúdas, que caminhava como ela, à procura. Apesar do cão estar sem coleira, ela parecia confiar que ele a seguia - ou talvez nem soubesse, talvez não importasse; pode ser. De repente, ocorreu diante dos meus olhos um dilema. Um senhor surgiu da escuridão com um laminado contendo restos de comida - tinha feijão, uns pedaços de carne - mas tão pouco que nem o cão se fartaria. O homem abaixou-se próximo a um poste e estendeu a comida ao cão - a mulher caminhava com o olhar sempre adiante, como se objetivasse algo muito além de alimento ou casa; nem sei se era lúcida, creio que não. Neste momento, o cão miúdo, o cão mixuruquinha, parou de súbito diante da comida, farejando-a ressabiado - sabe-se lá quantas vezes lhe ofereceram algo assim tão de graça, sem um ponta-pé em troca. Mas então o cão olhou para a mulher, olhou com um desespero, sabe? Ela caminhava já a alguns metros de nós - eu desacelerei as passadas para observar a cena, insistindo em meu peito que o cão, pelo amor de Deus, se alimentasse - mas ele ficou olhando para a mulher, olhando para o prato, olhando para a mulher... enfiou a cabeça no laminado, e mastigava com pressa olhando para ela, como que não querendo perdê-la de vista. Eu passei por ele, juro, com vontade de chamá-la, de dizer "este é seu cão!", mas sentindo uma coisa que não sei, aquela coisa que diz "que bobagem, esqueça isso!"; simplesmente entrei em meu prédio. Ao pisar em casa, lembrei do Duque, que me sabia chegando desde o barulho das chaves lá embaixo, e me aguardava sobre o sofá, meio agachado, chamando pra farra. Eu não tenho mais o Duque. Sem me desfazer da mochila, de nada, tornei a fechar a porta e desci as escadas com uma pressa no coração que tinha o compasso dos passos daquela mulher. Saí do prédio em direção ao poste, mas de longe já se via que o cão não estava mais lá. Aproximei-me para me certificar. Realmente, nem sinal do cão. Mas a comida, a comida estava ali no pratinho laminado. Praticamente intacta.

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© 2013 by PRISCILA LOPES
Fotógrafo Leonardo Gaudio


 

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