carta amiga

Essa é uma vida de possibilidades, e de renúncias. Cada possibilidade, uma renúncia ou mais. A gente parece que nasce sabendo um monte de coisa, e à medida que cresce vai ficando mais estúpida em relação à vida. Não sei. Parece. Aumentam-se os temores. Talvez a dramatização diminua, é. A gente meio que perde a cara de pau pra ser dramática quando alcança os trinta. Eu tô quase lá. De vez em quando rola um draminha. De leve. Tanto que ninguém fica sabendo. Estou cada vez mais sendo de mim; minha boneca. Faço escândalos internos, fico magoada; depois passa. Não sei se contigo é assim. Tu és mais escancarada. Às vezes atrapalhadamente escancarada, porque, claro, é difícil encontrar a medida de ser. Eu sou contraída. Você expansiva. Acho. E invejo isso de uma maneira boa que me faz ser tua amiga, conviver, tentar ser mais - ou menos - alguma coisa. Invejo os que choram pra fora, os que se rasgam, os que se emocionam, apertam, pedem que não se vão, ligam de madrugada, entopem as caixas de mensagem das pessoas; essas pessoas não se torturam. Se soubessem a hora de parar - como eu não sei; já que eu nem chego a dar a partida - seriam tão mais acima dos outros mortais. Não sei por que te falo dessas coisas. Quando eu te conheci, e eu tinha o que, uns 18 anos, primeiro que eu não imaginava continuar tua amiga vendo os trinta chegar - naquela época de "efervescência" a gente não esperava nem o pôr-do-sol junto. Dez anos depois, ainda somos jovens, e já não somos mais. Tenho três sobrinhos, uma afilhada. Fiquei pra titia, nega. Troquei as crônicas do Veríssimo pelos poços profundos do Caio Fernando Abreu; não ouço mais hardcore, mas fiquei pesada. E também comecei a sentir certos arrependimentos. Se eu pudesse voltar atrás uma única vez na vida, não sei se voltava pra barriga da mamãe ou se pro vestibular, a tempo de escolher algo promissor. Fora o desejo de voltar praqueles dias de sol nos bancos da Federal, ou antes: praquelas tardes de domingo tomando banho de mangueira na casa da vó. Sabe, amiga, certas coisas levam anos. E são levadas por eles. Bom que você ficou.

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© 2013 by PRISCILA LOPES
Fotógrafo Leonardo Gaudio


 

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